
Ali, no escuro, eu não sabia.
Fechados, meus olhos viam possibilidades que, mesmo distantes, faziam sentido para mim. Aí, tua mão tocou na minha. No meio da noite. E, como se já fosse costumeiro, eu a segurei. Com toda a minha força. Trouxe-a para junto de mim. Embora não precisasse: ela já estava. Eu a sentia assim.
Desse jeito. Como eu imaginei um dia.
Ali, no escuro, eu sonhava.
E a estrada se desenhava longa. Cansativa. Exaustão pura. Meus pés há muito estavam fincados num único lugar. A ausência de movimentos estranhamente me empurrava para frente, mas a verdade, sempre foi, é que eu queria voltar. Romper. Respirar. E, embora eu caminhasse, não sabia aonde chegar. Mas aí, tua mão tocou na minha. E eu a segurei. E entendi que meus motivos não anulariam, nunca, os seus. Descobri que distantes já estavam os abismos. Que os tropeços são inerentes e até naturais. Ali, no escuro, eu vi o sol, insistente, surgindo no fim de tudo. Iluminando os meus apagados sentimentos. Um sonho. Realidade. Seria o espaço entre o “querer” e o "permitir"? Firme, continuei a segurar tua mão. E, aos poucos, deixei minhas dúvidas escorrerem por entre as pedras daquela estrada.
Desse jeito. Como eu imaginei um dia.

Ali, no escuro, eu queria.
Valeria a pena, sim. E, com os olhos fechados, decidi. Me despedi das dores todas. Da insistente vontade de maltratar o mundo. Me despedi do que assombrava os meus dias. Abandonei, em algum ponto dentro da minha existência. E voltei. Porque continuar naquela estrada, com os pés fincados, não fazia mais sentido. Cruzei o caminho de volta. Rompi. Respirei. E voltei a amar.
Desse jeito. Como eu imaginei um dia.
O Canhoto












